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Entrevista com o AA Otávio Miranda, um dos 16 Young Leaders mundiais

Escrito por Cel. Araújo | Publicado: Quinta, 23 de Março de 2017, 08h17 | Última atualização em Quinta, 23 de Março de 2017, 09h22 | Acessos: 1167

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Embora apareça como representante de Portugal, na verdade é do Brasil. O fato se deu em virtude do passaporte apresentar dupla cidadania e o folder ter sido feito com base nele.

 

Na semana de seu aniversário, o CMPA traz uma entrevista com o AA Otávio Lucas Costa Miranda, 22 anos, formado no CMPA em 2011 e hoje aluno de dupla graduação em Economia Política e Relações Internacionais na Renmin University of China, em Pequim, recentemente selecionado como um dos 16 Young Leaders (Jovens Líderes) mundiais.

CMPA: Recentemente, foste selecionado como um dos 16 Young Leaders mundiais que participaram da edição deste ano da cúpula de Chefes e Ex-Chefes de Estado de Baku, o Global Baku Forum, acontecido na semana passada. O que é essa atividade e, além dos jovens, quem dela participa?

OTÁVIO MIRANDA: A cúpula é um dos principais eventos na agenda de política global. O forum é realizado pelo Nizami Ganjavi International Center, uma das três grandes fundações que agregam ex-presidentes e grandes lideranças do mundo. O forum conta anualmente com importantes figuras da agenda atual e de momentos passados. Esse ano importantes assuntos na agenda global foram discutidos por figuras como Angela Merkel, Theresa May, Sergio Mattarella, John McCain e vários outros.

xCMPA: Entre cerca de 4.000 jovens, por que foste um dos 16 escolhidos?

OTÁVIO MIRANDA: Anualmente o secretariado da organização, atualmente presidido pela Sra. Vaira Vike-Freiberga, ex-presidente da Letonia, escolhe 16 jovens que se destacaram por suas atividades e real impacto. Imagino que minhas realizações até aqui tenham ecoado positivamente. De qualquer maneira, me sinto contente por poder ser um dos 16 que estiveram lá. Tem muita gente boa, com projetos interessantíssimos, vindas de excelentes universidades de todo o mundo. É gratificante poder ser parte desse grupo.

CMPA: Citaste a criação da BRASA Ásia como um dos projetos que levou teu nome a ser escolhido. O que é essa entidade e a que se dedica?

OTÁVIO MIRANDA: A BRASA Ásia é a continuidade e expansão da BRASA, a Brazilian Student Association, que foi fundada em 2014. O que nós fizemos foi iniciar um processo de inclusão global de estudantes para que expandíssemos a organização que até então vinha fazendo um ótimo trabalho nos EUA, para uma organização global. Nosso maior foco é ser uma organização referência em levar estudantes brasileiros pra fora do Brasil mas, ainda mais importante, trazer essas pessoas de volta.

Mais do que tudo, percebemos que na Ásia existe uma mina de oportunidades educacionais, profissionais e experimentais que vem sendo pouco ou nada explorada por brasileiros. Eu vejo o mundo que vem aí como um mundo que terá na Ásia uma peça ainda mais central do que ela é hoje. No Brasil ainda não percebemos isso de maneira generalizada. Com isso, a BRASA Ásia tem por missão construir essa ponte e definitivamente tornar a Ásia parte do horizonte dos brasileiros e brasileiras.

Enquanto organização global, nós da BRASA temos um ativo fenomenal: somos uma organização formada por alunos de origens muito distintas, estudantes de universidades de ponta no mundo inteiro, que opera programas em parceria com instituições das mais conceituadas no Brasil e no mundo, em uma dúzia de fusos horários distintos, com uma real preocupação e interesse em participar ativamente do processo de formação de soluções para o Brasil que vem aí. A diferença é que percebemos que esse Brasil começa agora.

CMPA: Além da BRASA Ásia, poderias comentar sucintamente sobre os outros projetos de impacto mundial que criaste, como o Centro de Altos Estudos Sino-Brasileiros e o Brazil + China Challenge, e tua seleção como um dos dois brasileiros a participar do Harvard Project for Asian and International Relations?

OTÁVIO MIRANDA: Desde que cheguei à China em 2014, percebi que no campo Brasil-China existia um mar de oportunidades a serem exploradas, assim como um mar de conhecimentos a serem adquiridos. Qualquer desafio grande em qualquer lugar do mundo, na China é um desafio titânico. E isso é ótimo! Quanto maiores os desafios, maiores as oportunidades. Nesse sentido, comecei o processo de construção do Centro de Altos Estudos Sino-Brasileiros.

O centro está no fim da fase de prototipagem, mas já temos memorandos de entendimento assinados entre a Renmin University of China - a academia referecia na China em desenvolvimento, política internacional e economia - a UniCamp e a UFRGS, com mais alguns em andamento com outros centros de excelência. Cada parceiro foi escolhido cuidadosamente, para que possamos abrir as portas da China para pessoas que poderão, de maneira mais imediata mas também a médio prazo, moldar uma escola de pensamento brasileira sobre a China, o que hoje é inexistente. Hoje temos aqui alunas de mestrado do Brasil, o Adido do Exército e Diplomatas. Temos um projeto de expansão contínuo, que envolve criar uma cadeira permanente para professores brasileiros ministrarem cursos aqui em caráter rotativo, termos coletâneas de publicações em conjunto, periódicos e um maior fluxo de alunos.

O Brazil + China Challenge é a menina dos nossos olhos na BRASA Ásia. Vamos realizar em Beijing uma conferência de alto nível em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade de Pequim. Vamos iniciar o processo de moldagem de um projeto alternativo para o desenvolvimento brasileiro em um ciclo de conferências que irá rodar o mundo construindo um projeto novo baseado em uma outra visão de caminho de sucesso por um Brasil melhor.

Esses projetos todos acabaram me levando a Harvard, onde eu e outro brasileiro participamos de seminários com CEOs de empresas, congressistas americanos, politicos asiáticos e outros 298 participantes que vem executando grandes projetos. Foi uma experiência interessante poder ventilar minhas ideias e realizações em pé de igualdade com pessoas como o Vice-Primeiro Ministro Indiano. Algo até então inconcebível para mim.

CMPA: Em 2010, no CMB, idealizaste e integraste a turma pioneira que participou do Harvard Model United Nations (Modelo das Nações Unidas de Harvard). Em 2011, já no CMPA, criaste a MundoCMPA. Qual foi a importância destas duas iniciativas em tua trajetória?

OTÁVIO MIRANDA: Eu sempre credito inteiramente a essas duas experiências o início da minha caminhada. Foram projetos que tomaram proporções que nenhum de nós imaginou. Graças a eles, notamos uma clara mudança nasc metas e ambições do aluno do CM. Abrimos as portas para um mundo inteiro para o aluno e a aluna que até então não haviam rompido essa barreira. Mas sempre repito que ambas foram possíveis porque algum Comandante, gestor ou professor acreditou no potencial da ideia e trabalhou para torná-las realidade. Minha gratidão ao Ten. Lapenta, Cel. De Souza, Cel. Araujo e ao General Gonçalves serão eternas. Eles são os que plantaram a sementinha que hoje resultou em meus projetos e em um aumento histórico de estudantes do SCMB indo pra fora do Brasil e, mais que tudo, voltando.

CMPA: Por que foste estudar na China e como ocorreu esse processo?

OTÁVIO MIRANDA: Quando tomei a decisão de abandonar os estudos na UFRGS e na UnB e rumar leste, vim com a clara missão de adquirir conhecimento suficiente para construir essa ponte. No Brasil ainda carecemos de um grupo forte circulando pela China, de oportunidades sendo aproveitadas. Eu me propus a construir essa ponte com quem quiser dar o braço e construí-la junto comigo. Até agora os resultados foram positivos, mas ainda temos muito o que construir.

CMPA: A língua foi uma barreira?

OTÁVIO MIRANDA: Definitivamente. Fazer a graduação inteira em chinês é algo extremamente custoso, mas recompensador. É mais ou menos como correr uma maratona: cadência, persistência e obstinação são os pontos principais. É uma barreira perfeitamente transponível.

CMPA: Comentaste que "há toda uma geração do SCMB trabalhando arduamente por um Brasil possível". Qual a relação deste fato com as Simulações da ONU que começaram no CMB e CMPA e hoje existem em quase todo SCMB, sendo bastante estimuladas pela Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército (DEPA)?

OTÁVIO MIRANDA: Essa geração é produto de algo que experimentei ao levar adiante os projetos que conversamos. O Colégio acreditou na ideia de um aluno e trabalhou para potencializá-la. Isso não tem preço. Eu e mais todos os outros que foram comigo pra Harvard naquele ano, assim como todos os que participaram ativamente dessas atividades no CMPA, somos as provas vivas da importância de o colégio dar asas ao aluno. Até então, capacidades analíticas e de oratória nunca tinham sido uma atividade disputada.

Graças às simulações, hoje no colégio temos excelentes atletas, mas também excelentes debatedores e oradores. As simulações desenvolvem no aluno uma consciência sistêmica ímpar. Quem as leva a sério, acostuma-se desde novo a lidar com problemas multiangulares que só podem ser resolvidos com uma ampla compreensão do fato e persistência para negociar. Eu entendi o papel de governos e seus principais desafios a partir daí. Nasceu aí também o meu desejo e o de muitos outros de passar a trabalhar de maneira mais prática essas qualidades que desenvolvemos. Não me surpreende observar que hoje grandes iniciativas como a BRASA, o Mapa Educação, Vetor Brasil e por aí vai, tem seu processo de formação ou execução recheado de ex-alunos dos CMs. Até recomendo que alguém faça um estudo sobre onde foi parar essa geração de ex-alunos. Não tenho dúvidas de que o resultado será, mais uma vez, surpreendente.

CMPA: No CMPA e nas demais escolas brasileiras há milhares de jovens anônimos que possuem capacidade transformadora. Como estimulá-los e lhes proporcionar oportunidades para que consigam ser, realmente, vetores de transformação para o País?

OTÁVIO MIRANDA: O processo de concretização do jovem em relação a sua relevância na busca por soluções, passa pela real inclusão de cada um deles. Cabe às escolas entender a melhor maneira de estimular noções mínimas de integração e senso de pertencimento a cada um desses alunos. Eu insisto no valor do aluno. Nem sempre o aluno disruptor vai ser o aluno convencionalmente destacado. Dar protagonismo e potencialização às ideias do aluno é o primeiro passo rumo à criação de novas modalidades de atividade que tornem outros alunos também destacados dentro do SCMB. Esse senso de relevância e pertencimento é o que naturalmente estimula o exercício voluntário de cidadania em cada aluno envolvido

CMPA: Em tua opinião, quais são as saídas para o "Brasil possível" ser a pátria com que todos sonhamos?

OTÁVIO MIRANDA: Inclusão, expansão, conexão e regionalização. A fronteira do desenvolvimento, hoje, representa não só o maior desafio, mas a raiz das oportunidades que vão moldar um Brasil possível. A expansão da fronteira econômica brasileira, o aumento da renda e empregabilidade, a inclusão regional e a potencialização de ideas via conexão são os caminhos. Isso é um projeto de desenvolvimento que deveria ser pauta central, mas hoje não é. Penso que o que falta é projeto e entendimento sistêmico. Falta a gente entender quais são os reais problemas estruturais brasileiros que travam o desenvolvimento, ao invés de creditá-los ao senso comum.

Quando você se questiona, por exemplo, porque o Norte e o Nordeste são regiões excluídas do processo nacional de desenvolvimento e distribuição de renda, e encontra respostas complexas e consistentes para essa pergunta, idealizar projetos e soluções criativas para o desenvolvimento não é mais impossível. Esse projeto necessariamente precisa vir das pessoas. Brasília é naturalmente cega à realidade de São Gabriel da Cachoeira, por exemplo. Como é que a gente pensa numa lei nacional sem entender como ela vai ser aplicada nos diversos “Brasis” que formam o nosso Brasil?

As soluções de hoje precisam vir de baixo pra cima, por uma questão lógica: pensar pequeno e regionalmente é a saída mais inclusiva e sustentável. Políticas Públicas não precisam vir exclusivamente do governo, mas podem vir também de um alinhamento entre pessoas, sociedade civil e iniciativa privada. A questão hoje não é debater mais ou menos Estado. Se no Brasil o Estado fosse grande, certamente ele seria percebido nas terras indígenas, nas fronteiras, no semi-árido, o que ele não é. A questão é debater a eficiência do Estado e como fazê-lo ser mais eficiente, em conjunto com quem hoje pode ser mais responsivo que ele. Daí a ideia de pensar pequeno e o alinhamento que propus para repensar projetos.

Isso para atacar a questão das fronteiras do desenvolvimento, mas quando falamos dos grandes centros urbanos, o debate muda de figura. Estamos hoje numa via acelerada rumo à digitalização da vida em sociedade. A Internet das Coisas, o Big Data, a realidade aumentada - e por aí vai - criaram hoje um desafio, que naturalmente estimulam o debate sobre governabilidade, participação, organização social, políticas públicas, etc.

Eu entendo que a solução passa por duas coisas: projetos escaláveis e ideias pequenas. O Brasil possível vai ser um Brasil em que as propostas de políticas públicas - sejam vindas do governo, sejam de empresas ou sejam do terceiro setor - hão de vir dos pequenos casos, evoluindo para a generalização. Um país em que a regionalização vai trazer regiões longínquas para o centro da agenda nacional de desenvolvimento. Um Brasil em que a gente entenda a interação entre tecnologia e sociedade para potencializar muitas pequenas ideias e criar esse senso de relevância e pertencimento nas pessoas. Um país em que a tecnologia seja peça central na participação cidadã e produtividade. Um lugar em que cada vez mais as pessoas dependam da própria força de trabalho e criatividade como algo mais importante do que ir buscar empregos criados por outrem. Um país em que pela primeira vez, em conjunto, a gente pense grande. Mas que a gente pense grande por resolver e escalar soluções pequenas.

*NR: AA - Antigo Aluno

 

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