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Casarão da Várzea: berço e palco dos ideais republicanos e abolicionistas no RS

Publicado: Quinta, 15 de Novembro de 2018, 08h52 | Última atualização em Quinta, 15 de Novembro de 2018, 08h52

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O Velho Casarão da Várzea teve uma profunda ligação com alguns dos principais momentos nacionais. Entre estes, com o que, em 15 de novembro de 1889, levou à Proclamação da República, hoje comemorada, e com a Abolição da Escravatura, a ser também lembrada no próximo dia 20, Dia Nacional da Consciência Negra.

Quando a Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul começou a funcionar no prédio da Várzea, em 1883, quase a metade dos deputados da Assembleia Provincial eram oficiais da Guarda Nacional (seis) e do Exército Imperial (seis), sendo que alguns destes eram ou foram professores na Escola Militar, como Santiago Dantas e Ernesto da Cunha Matos.

Essa participação de militares na vida política, possível naquela época, foi habilmente explorada por aqueles que sonhavam com o fim do império e com o estabelecimento de uma república no Brasil.

A partir de 1883, com o descontentamento gerado pela famosa "Questão Militar" e com o estabelecimento da Escola no prédio da Várzea, as ideias republicanas foram potencializadas, sendo incorporadas por oficiais influentes no Exército, alguns naturais da Província, outros a ela ligados pela longa permanência em terras gaúchas.

Foi o caso de ilustres personalidades como o General Deodoro da Fonseca (então Comandante das Armas no RS); os coronéis Senna Madureira, Cunha Mattos, Simeão de Oliveira (Comandante da Escola) e Bernardo Vasques; o Maj Solon Ribeiro e os capitães Godolfim, Adolfo Menna Barreto, Dionísio Cerqueira, Pedro de Alcântara e Setembrino de Carvalho, a maioria futuros generais e marechais na República.

Escola militar porto alegre 1885 original

Escola Militar da Provícia do RS em meados da década de 1880

Quase todos esses, além de participação direta ou indireta na histórica Questão Militar, iriam também ser partícipes, presentes ou a distância, na reunião de 200 oficiais no RJ que, em 1887, levou à fundação do Clube Militar e marcou, de fato, o início do movimento que levaria à Proclamação da República pouco mais de dois anos após. Nessa reunião, os coronéis Simeão de Oliveira e Senna Madureira ladeavam o Mal Deodoro da Fonseca, que foi eleito presidente por indicação do Visconde de Pelotas - o antigo aluno e ex-secretário da Escola Militar, Marechal José Antônio Corrêa da Câmara.

Alguns anos antes, em 1884, uma parte desses ilustres Oficiais do Exército, seja na Assembleia Provincial, seja nas funções que ocupavam na Escola Militar (como o emérito professor Joaquim Salles Torres Homem e o Capitão João Cezimbra Jacques) ou em outros locais, foram também corresponsáveis por outro grande feito gaúcho. Nesse ano, Porto Alegre se tornou uma das primeiras cidades brasileiras a libertar progressivamente seus escravos, começando pelo então 4º Distrito, de modo que, em 1888, quase todos os negros da Capital já estavam alforriados. Nesse período, a atual Rua Santana (1885) ainda era conhecida por seu antigo nome de "Rua dos Pretos Forros", já que por ela os negros vinham de suas casas (na Azenha e proximidades) para o centro da Capital e, principalmente, para o então Campo da Redenção, onde faziam batucadas e danças típicas aos domingos em frente à Igreja Nosso Senhor Jesus do Bom Fim.

As ideias republicanas e abolicionistas repercutiam intensamente entre os alunos da Escola Militar, através de reuniões e discussões políticas, manifestações públicas, artigos em revistas, panfletos apócrifos, fundação de clubes republicanos e outras formas, quase todas não autorizadas pelos superiores, o que causou uma série de confusões internas e externas, muitas delas gerando sindicâncias e processos disciplinares envolvendo alunos. Entre estes alunos, também são encontrados nomes que se notabilizariam mais tarde, como Juvenal Octaviano Miller, João Simplício Alves de Carvalho, João Vespúcio de Abreu e Silva, Lino Carneiro da Fontoura e Gregório de Paiva Meira (os cinco tenentes professores que fundaram a Escola de Engenharia em 1896, precursora da UFRGS) e Isidoro Dias Lopes, de intensa participação na vida nacional posteriormente, e muitos outros.

Em 1880, por exemplo, quando a Escola ainda era sediada no Palacete da Baronesa do Gravataí (em terreno onde é hoje o Pão dos Pobres), circulou uma das primeiras revistas precursoras da Hyloea, a Revista Mensal, órgão que se intitulava "porta-voz da Sociedade Científica e Literária Culto às Letras" (uma das primeiras antecessoras da atual SEL - Sociedade Esportiva e Literária), cuja fundação se dera em 19 de setembro daquele ano em um dos salões da Soirée Porto-Alegrense, com a presença de autoridades da Província. Essa revista teve grande repercussão por pregar abertamente o positivismo e, indiretamente, os ideais republicanos e abolicionistas.

Por esses e por diversos outros fatos históricos, é indiscutível que a Escola Militar, através de seus oficiais e alunos, tenha sido um dos berços e o principal palco das ideias abolicionistas e republicanas no seio militar da Província do Rio Grande do Sul após o término da Guerra do Paraguai. É inconteste também, que o Velho Casarão da Várzea, sede dessa Escola a partir de 1883, guarda, em suas arcadas, o eco das principais vozes militares que tornaram possível a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República.

*Pesquisa: Cel Leonardo Araujo, historiador do CMPA.

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